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Manifesto

Manifesto pelo fim das Bets

Manifesto institucional (Bets)

Autoria: Instituto de Defesa da População Negra (IDPN) e Coalizão Negra por Direitos (CND)
Data:
Documento original: Google Docs

MANIFESTO INSTITUCIONAL (BETS)

  • Instituto de Defesa da População Negra (IDPN)
  • Coalizão Negra por Direitos (CND)

O Brasil atravessa uma enorme crise silenciosa, sofisticada e profundamente racializada.

Esta não veste farda, não anuncia seus mortos e diretamente prejudicados em horário nobre, e não produz comoção proporcional à devastação que causa. Opera por algoritmos, publicidade agressiva e captura sistemática da esperança popular, e o faz com a eficiência fria de quem conhece com precisão a anatomia da vulnerabilidade, brincando com o sonho de mobilidade social e dignidade.

O Instituto de Defesa da População Negra (IDPN) e a Coalizão Negra por Direitos (CND) posicionam-se publicamente para enunciar uma verdade absolutamente incômoda: a estrutura contemporânea das apostas esportivas no Brasil constitui um mecanismo de adoecimento social, aprofundamento racial da pobreza e transferência massiva de riqueza das periferias brasileiras para conglomerados financeiros majoritariamente internacionais.

Ao contrário do que se prega, não se trata de entretenimento, nem de liberdade econômica, menos ainda de regulação de mercado. Estamos diante da institucionalização de uma engrenagem que converte de maneira vil a vulnerabilidade em lucro.

1. O tamanho da devastação

Os números são suficientemente graves para exigir tratamento de emergência nacional.

Cerca de 20 milhões de brasileiros apostam mensalmente. Desses, 10,8 milhões apresentam sinais de uso problemático ou dependência, uma prevalência de comportamento de risco 40% superior a qualquer outra substância ou modalidade de jogo lícita existente no país, segundo o levantamento Unifesp-LENAD.

É de suma importância informar que o tempo médio para o desenvolvimento do vício é de apenas 14 meses, metade do tempo que o crack leva.

Segundo o Ministério da Saúde, o impacto sobre o sistema público de saúde é estimado em R$38,8 bilhões anuais, valor este que o SUS jamais foi orçado para absorver, os atendimentos psiquiátricos ligados às apostas cresceram 340% entre 2022 e 2025. A cobertura atual da rede pública alcança apenas 12% da demanda real, o que nos leva ao próximo problema, que representa um dado trágico, mais de 1.200 suicídios foram confirmados com ligação direta ao endividamento por apostas no último período analisado. São mortes invisíveis, sem estado de comoção nacional, sem coletiva de imprensa.

2. A drenagem

Entre 2023 e 2025, o Brasil transferiu de R$350 a 400 bilhões para o mercado de apostas, somente em 2024, foram transferidos R$240 bilhões, valor este que equivale a duas vezes o orçamento federal para educação naquele ano.

O fluxo é unidirecional, os recursos saem do microcrédito, do 13º salário, do consumo básico das famílias, e chegam a holdings offshore sediadas na Turquia, Malta e Curaçao. O retorno ao Brasil em forma de tributos é inferior a 5% do lucro líquido. O restante é novamente investido em publicidade para capturar novos usuários entre os que já têm menos.

A economia interna perde aproximadamente R$120 bilhões por ano em consumo que deveria circular no comércio local, na saúde, na educação. A Confederação Nacional do Comércio estima que 45 mil empregos diretos no varejo foram perdidos ou deixaram de ser criados em razão desse desvio.

O que antes era feito pelo colonialismo econômico em suas formas tradicionais assume agora uma nova morfologia digital, qual seja, a drenagem sistemática da renda popular por plataformas desenhadas para estimular compulsão, impulsividade e dependência, e o pior, disponíveis 24 horas por dia, a um toque do celular.

3. A questão racial

A população negra e periférica tornou-se o alvo preferencial desta indústria, já que 40% dos apostadores são negros (pretos ou pardos), e que 72,8% dos beneficiários do Bolsa Família pertencem a esse grupo, estima-se que R$ 3 bilhões mensais desse programa de transferência de renda sejam drenados pelas plataformas a cada mês.

Nas favelas, 70% dos moradores afirmam apostar regularmente. O gasto em apostas nas classes D e E saltou de 0,27% para quase 2% do orçamento familiar entre 2018 e 2024, comprimindo gastos essenciais como alimentação, saúde e educação (segundo levantamento da PwC Strategy &.)

Há uma perversidade histórica nisso, os ganhos de uma década de políticas de cotas, de transferência de renda e de acesso ao mercado formal são anulados, silenciosamente, mês a mês, por um algoritmo.

O mesmo Estado que falha em garantir educação integral, saúde mental acessível e oportunidades estruturais para a juventude negra permite e regula, que plataformas milionárias disputem diariamente a atenção e a sobrevivência financeira dessa população.

E onde o Estado omite, influenciadores digitais ocupam, normalizam o adoecimento coletivo, transformam compulsão em estilo de vida e convertem vício em símbolo aspiracional, com ganhos documentados entre R$20 mil e R$50 mil mensais por contratos de divulgação.

O "efeito de espelho" é especialmente devastador entre jovens negros que veem influenciadores de origem similar exibindo riqueza supostamente obtida pelas apostas. Os algoritmos amplificam os ganhos raros e escondem as perdas sistemáticas e quotidianas da base. O trabalho e o estudo perdem sentido diante da promessa de dinheiro fácil via smartphone.

4. A Nossa posição

O IDPN e a CND rejeitam a naturalização desse modelo.

Não aceitaremos que a pobreza negra seja convertida em ativo financeiro, que o sofrimento psíquico da população periférica seja tratado como dano colateral do mercado, que o desespero econômico seja explorado como estratégia de expansão empresarial.

Defendemos a responsabilização rigorosa das plataformas de apostas pelos danos sociais e sanitários que produzem a restrição severa da publicidade de apostas, especialmente aquela direcionada à juventude e às periferias; A proibição expressa do uso de benefícios sociais, tais como o como Bolsa Família e FGTS em plataformas de apostas; a criação de políticas públicas nacionais que visem a prevenção e tratamento do transtorno do jogo, com financiamento compatível com a escala da crise; a fiscalização algorítmica e transparência financeira das operadoras do setor, incluindo auditoria dos fluxos de capital offshore; a responsabilização civil de influenciadores que promovem práticas predatórias direcionadas a populações vulneráveis; e por derradeiro a construção de uma agenda nacional de proteção econômica das comunidades historicamente exploradas.

O IDPN compreende que o debate sobre apostas esportivas não pode ser reduzido a moralismo simplista ou paternalismo estatal. O centro da questão é estrutural: quem lucra, quem adoece e quem paga a conta social dessa engrenagem.

As bets já se tornaram o segundo maior problema social em impacto econômico no Brasil, superado apenas pelo desemprego estrutural. Mas, ao contrário do desemprego, esse problema tem endereço, tem beneficiário identificado e tem mecanismo de operação passível de regulação e responsabilização.

Toda sociedade revela suas prioridades pelo tipo de sofrimento que decide tolerar.

Nós nos recusamos a tolerar a transformação da esperança negra em combustível de um mercado bilionário.

O Instituto de Defesa da População Negra seguirá atuando na defesa intransigente da dignidade humana, da saúde coletiva, da justiça racial e da proteção das comunidades historicamente exploradas pelo modelo econômico brasileiro.

Porque não existe liberdade econômica legítima quando ela se sustenta sobre a destruição silenciosa dos mais vulneráveis.

“Ou construiremos uma solução que alcance a todos ou não teremos soluções para ninguém.”

— Joel Luiz
  • Instituto de Defesa da População Negra (IDPN)
  • Coalizão Negra por Direitos (CND)

Brasil, 12 maio de 2026